O coisinho
A mecânica dos carros é uma coisa mesmo nauseante. Isto não é assim mania de gaja, porque eu até gosto de botões e de circuitos eléctricos e essas coisas. Mas de facto, o motor dos carros é mesmo muito feio. Tem mau ar, é sujo, cheira mal e nas vezes que tive que abrir um estava sempre a escaldar. A sinalética é para entendidos, tenho sempre dificuldade em saber onde se põe o líquido dos vidros e acho que já devo ter posto coiso dos vidros na água da bateria, ou no buraco do óleo, ou assim. Ver o nível do óleo também é só para entendidos. Tem de se tirar aquele arame todo preto e besuntado e adivinhar, no meio do óleo todo, onde é que o óleo que está dentro do coiso do óleo está a bater. Tudo muito desagradável, muito sujo, muito agreste e mal sinalizado. Depois é tudo à bruta: abre-se à bruta, mete-se a mão à bruta por debaixo da tampa para abrir aquela patilha que está por baixo, tira-se à bruta o pau para segurar a tampa levantada e no final deixa-se caír à bruta para fechar. Depois sacode-se as mãos uma na outra à bruta e fazemos um ar entendido e satisfeito e um bocado bruto. Pelo menos é assim que eu vejo os gajos fazerem nas estações de serviço e por isso faço o mesmo.
Os muros
Sabem aquela anedota dos malucos que para saír do manicómio tinham de saltar 100 muros e quando chegaram ao 99 voltaram para trás porque estavam muito cansados? Gostava muito que isso nunca me acontecesse. O voltar para trás, claro, porque saltar muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro e outro muro é o que eu faço que nem uma cabra. Ou uma gazela se acharem mais elegante a imagem.
Agora ía

Nem sou assim muito de praia. Não tenho aquela compostura habitual, tenho sempre a toalha enrolada, estou sempre cheia de areia e nem me importo. Gosto mais da areia quente no corpo do que da água do mar fria. Mas agora apetecia-me tanto praia, o cheiro do mar, o sol. Olhar para a areia muito perto, para ver as diferentes cores dos grãos. E as diferentes formas.
Socrates do asfalto
Pela quantidade de coisas que me passam pela cabeça na viagem Porto-Lisboa, habitualmente de noite, umas espertas, outras parvas, sensatas e irracionais, calculo que os camionistas devem ser grandes filósofos. Portanto desenganem-se, porque o Socrates do título é mesmo o mais famoso da história.
Fado
Então a história é assim: ela amava o gajo do lado, não via mais nada à frente dela. Há muitos anos que não via. Ele viu. Ok, viu porque ela não se entregava (e ele também não) e porque ela se evadia e escapava em pensamentos de uma vida romântica que não acontecia (enquanto ele a penalizava constantemente da vida romântica que não acontecia), ela não vivia e ele também não. No entanto, iam-se entregando como sabiam e podiam, na certeza que os dias bons haviam de chegar. Entretanto ele viu uma janela de oportunidade e abriu-a de par em par. Aquilo que era para ser um curativo, funcionou como curativo realmente. Ela encontrou a sensualidade, a paixão, a capacidade de expressar os afectos, potencial que conhecia mas que nunca tinha florescido. Floresceu, até aqui tudo certo. Ele recuperou a confiança, a alegria de viver, usufruiu do poder, sentiu-se bem e feliz como há muito tempo não sentia. Mas o curativo depressa começou a mostrar os efeitos colaterais: instabilidade, insegurança, desconfiança, mentira, raiva, culpa, acusações, ódio, violência, morte ... tudo o que é cruel, perverso e animalesco se revelou nos dois. Ficaram irreconhecíveis e medonhos depois de abrirem a caixa da Pandora. O que era um remédio tornou-se num veneno mortal, mas o gajo do lado já estava viciado. Embora o veneno matasse tudo à sua passagem, independentemente do que matava, fosse o que fosse, tudo era atropelado para não prescindir do momento. Pais, filhos, amores e animais de estimação, tudo era trucidado e esventrado em troca do veneno. As curas de desintoxicação não resultavam, não havia AA’s para estes casos. Ele prometia que se tratava, ela queria acreditar mas não acreditava, ele reincidia, ela blasfemava, ele enraivecia-se, ela deprimia, ele voltava e prometia num ciclo bipolar e infernal. Depois de terem conseguido arrasar tudo à sua volta, ficaram os dois finalmente sem nada, em solidão, desespero e abandono, em culpa e sofrimento eternos, como é suposto acontecer a quem não sabe viver, a quem destrói o que não deve e a quem não se soube entregar a tempo inteiro.
Há muitos fados com esta história. Será que acontece mesmo?
Piensa en mi
Adorei a música. É uma das minhas músicas. Obrigada por pensares em mim.
"Piensa en mi cuando sufras,
Cuando llores, también piensa en mi,
Cuando quieras quitarme la vida
No la quiero, para nada
Para nada me sirve sin ti."
